POWER POINTS: Inflação, salário, dinheiro no bolso e a classe política

Economia


(*) Roberto Musatti
 
9/2/2024 - Inflação costuma ser confundida com aumento de preços de bens e serviços, quando na realidade não são os preços que aumentam, mas sim o dinheiro é que perde seu valor - se dinheiro comprava 10 kg de arroz e agora compra 9 kg de arroz é porque seu dinheiro perdeu 10% do valor de compra. Embora este conceito seja correto e apropriado, o consumidor está muito pouco interessado em definições de economia, mas sim com seu dinheiro no bolso. Ele vai ao supermercado e o tomate agora custa $ 9,00 o kg, o arroz foi para $ 37,00 por saco de 5 kg, e o azeite de oliva tem que fazer financiamento para comprar. A gasolina, o diesel e o botijão de gás foram premiados com 12.5% de aumento, que deve impactar diretamente nos custos do frete de alimentos (principalmente) e na cesta básica.
Para o consumidor pouco interessa as desculpas que sempre justificam os aumentos: a guerra no Oriente Médio jogou os preços do barril de petróleo para cima. O ‘El Ninho’ trouxe seca para algumas regiões produtoras de alimentos (soja, milho, amendoim, pastagens...) . A Espanha, maior exportadora mundial de azeite, passa pelo 2º ano consecutivo de seca nos olivais. O arroz também é arte da Índia e sua seca. 
O que lhe interessa é conseguir manter sua família com esses novos preços. Para agravar a situação no Brasil de hoje, temos um governo que gasta muito, mal e sem limites, que tenta pagar suas contas aumentando impostos. A FGV calculou tempos atrás que o brasileiro médio paga na média 51% de impostos somando os diretos e os indiretos. O consumidor nacional não sabe quanto está pagando de imposto quando adquire 3 litros de leite,  dois pacotes de arroz, uma camiseta ou dois pneus para o seu carro. 
Nos EUA todos os produtos são colocados sem impostos, que serão adicionados NO CAIXA pela taxa estadual de imposto que varia de Estado para Estado – da Califórnia 7.25% ao Colorado 2.9%. Esta taxa é universal serve para todos os produtos enquanto no Brasil da confusão tributária, cada produto tem sua taxa de imposto impedindo transparência para o consumidor. 
Mas a inflação tem mais um complicador: é uma cesta de produtos da economia que tiveram diferentes aumentos ou queda de preços e que recebem diferentes pesos na hora do cálculo, de acordo com o volume de seu consumo. Não dá para comparar arroz com salmão defumado norueguês ou banana nanica com lichia. O IGPM – um dos índices que calcula a variação média de TODOS os produtos de toda economia.  
O que precisa ser entendido é que cada um de nós tem um índice pessoal de inflação pelos produtos que consumimos. Os aumentos na tarifa do metrô em São Paulo não afetam a população de Tupã. Quem fuma é afetado pelos aumentos do cigarro e bebidas alcoólicas, porém não afeta quem não bebe ou fuma. É fácil de calcular: é só monitorar a variação de 10 produtos mês a mês. A variação será sua inflação.
Outra definição importante para o consumidor é sua renda disponível: Depois de pagar as despesas que gasta todo o mês – água, luz, aluguel, escola das crianças – quanto $$$$ sobra no bolso para gastar? O outro é a renda discricionária – o $$$ que sobra no bolso para consumir no modo e na quantidade que desejar depois de pagar todos os custos do mês: é o dinheiro do cinema, do passeio, do churrasco e da pescaria no fim de semana. Para muitos, essa renda já está comprometida e devem começar agora os cortes na renda disponível...
A situação se agrava ainda mais quando os salários são reajustados abaixo da inflação, os benefícios dos aposentados idem, quando a tabela do Imposto de Renda não é reajustada anualmente – como agora: o consumidor está entrando no pior dos dois mundos: perda da renda e aumento das despesas que irá afetar até  a sobrevivência das classes de menor renda.
Pelo que já foi exposto, fica fácil entender porque um governo se torna impopular, a qualquer nível. É quando o setor público tem benefícios que não são oferecidos à população, como se fosse uma casta privilegiada ou uma corte da monarquia, como o Judiciário, que vota seu próprio aumento sem aprovação da população através de seus representantes – o Congresso. Mostra insensibilidade a fala recente do  presidente achando ser pouco R$ 44.000 (fora os penduricalhos) por mês pagos aos ministros do STF para “um cargo de tanta responsabilidade”, quando  90% dos brasileiros ganham até R$ 3.422 por mês sem penduricalhos.
Como tudo que acontece no topo da pirâmide desce até a base, não foi diferente a votação ocorrida na Câmara Municipal de Tupã, onde os vereadores aprovaram o aumento de seus salários e do Executivo em 43.4%, acima da taxa de inflação do período 2017-2023, que ficou em 40.9%. É imoral quando se considera vários fatores: 1. Não faz muito tempo a remuneração dos vereadores era inexistente, em conformidade com a prática de outros países de 1º mundo - EUA, UK, Japão, Holanda, Suíça, Países Nórdicos, entre outros. 2. O valor atualizado insere os vereadores no topo da pirâmide de salário médio de 5% dos brasileiros ricos (R$ 10.313), enquanto o prefeito se insere no topo do topo de salário médio de 1% dos brasileiros mais ricos (R$ 28.659). Todo esse custo para administrar uma cidade de 65 mil habitantes que seria um bairro da cidade de São Paulo? E para apenas 4 sessões mensais? É no mínimo indecente. 3. Toda essa ação foi feita através de um projeto de lei da câmara para ser  aprovado pela própria câmara e sancionado pelo prefeito, ambos beneficiários.
Fernão Lara Mesquita costuma dizer que democracia é quando o povo manda no governo e não o oposto. Cita como exemplos a Suíça e os EUA, onde qualquer decisão que envolva gasto do dinheiro público passa pela aprovação da população, que ainda tem o poder do ‘Recall’ - uma espécie de impeachment dos ocupantes de cargos públicos via consulta popular. Se a população não está contente com o desempenho de um prefeito, por exemplo, com certo número mínimo de assinaturas, a remoção dele do cargo é colocada em votação. “Este poder ocorre em todos os empregos do setor privado, onde se você não tem um desempenho satisfatório, você pode ser demitido”.
A democracia nasce na base da pirâmide e sobe ao topo, justamente o inverso do que ocorre em todo o Brasil. Resta à população, por enquanto, o poder democrático do voto, de não reeleger aqueles que tomam decisões que batem de frente com os princípios da moralidade face as atuais dificuldades – na esperança que o exemplo, o alerta, sirva para guiar a atuação dos novos incumbentes.
 
(*) Roberto Musatti, economista (FEA-USP), mestre e doutor em marketing (Michigan State e CIBU-San Diego)

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