Surprise e lembranças

Variedades



Se existe um lugar comum nas cidades de médio porte como Tupã, é o mercado.  Nos supermercados, quase todo mundo se conhece. Pelo menos, é o que acontece comigo.
Tive, nesse domingo passado, uma surpresa que me deixou de boca aberta.
Conversava com um amigo do lado de cá de uma banca de frutas, quando vi, do outro lado da mesma, um aluno, já de cabelos brancos, beirando os sessenta anos, alguém que eu já sabia, guardara para sempre na memória alguns poemas em francês.
Disse então para o que estava perto de mim: - quer ver uma coisa bonita? A seguir, falei em voz alta: - fulano, como é então aquela poesia? E ele passou a declamá-la com toda  desenvoltura e facilidade.
Terminada a declamação, perguntei para o mais próximo:   
- gostou?
Ele, então sorrindo, disse: - bonito! bonito! Disso eu também entendo.
Já o de lá o fizera; agora, esse, de cá, soltava o carretel e na língua de Voltaire, Rosseau, Vitor Hugo, Lamartine e outros, declamando sorridente, com a maestria dos competentes.
Tremi dos pés à cabeça. Fiquei embasbacado. Fazia um grande esforço para entender tudo o que ele dizia na sua recitação. Há mais de quarenta anos não exercito o meu francês.
Eu sabia que o de cá também fora meu aluno; pensava que de português ou inglês.
Os dois se aproximaram, cumprimentaram-se e disseram-me: professor, nós estudamos naquele tempo em que a escola ensinava e formava para a vida. Homens do comércio e da indústria hoje lamentam profundamente o estado deplorável da escola pública atual.
Fiquei mais do que surpreso, que alegria. As sementes lançadas há tanto tempo haviam germinado e lançado raízes.
Lembrei-me, e é verdade, que a escola do Estado era de primeiro nível. Para entrar para o ginásio era preciso prestar o famoso exame de admissão. Não eram necessárias escolas particulares, com preços elevadíssimos, que oneram tanto as famílias, para que seus filhos tivessem alguma chance no contexto profissional. 
Lembrei-me, então, do Instituto Índia Vanuíre de Tupã na década de sessenta e setenta, com uma pleiâde enorme de catedráticos nas várias áreas e disciplinas.
Lembrei-me daquele tempo em que o Estado cumpria melhor a sua obrigação de proporcionar uma educação de qualidade e valorizava o papel fundamental que o professor tem na criação de uma sociedade mais justa e, por isso mesmo, mais feliz.
Lembrei-me dos nossos alunos que, sem cursinhos extras, que agora existem, e tendo já concluído o científico ou o clássico (cursos médios) ingressavam nas melhores faculdades e universidades do País.
Há pouco tempo fiquei bastante feliz ao ser abordado por um jovem em uma academia local. Professor, eu sou fulano de tal. Aquela palestra que o senhor fez no dia da morte do Elvis Presley lá na Vila Abarca (1977) destacando os valores éticos e espirituais como base para uma sociedade mais justa, marcou minha vida. E hoje faço um bom trabalho com adolescentes e menores carentes em Belo Horizonte, onde sou promotor.
Nesses dias, a escola já mostrava os primeiros sinais da sua decadência.
Lembrei-me que, quando em 1971 lecionava em Bastos, no Tsuya, mais de 70% dos alunos eram filhos de japoneses. Lembro-me da reação e rejeição à filosofia da facilitação, pois começavam na rede pública os trabalhos por equipe, em que dois ou três trabalhavam e assimilavam conteúdos enquanto a maioria recebia a mesma nota sem nenhuma aprendizagem. Começava a política de aprovação em massa para dados estatísticos, os quais na verdade eram enganadores.
Hoje, a escola pública, com algumas exceções, é um ambiente anárquico, acéfalo. Um centro de deformação de menores onde a clientela desconhece o que é limite, respeito, o que é responsabilidade. Visite algumas escolas e tire a sua conclusão.
Nos nossos dias os adolescentes são instruídos para conhecerem os seus direitos, mas são muito pouco cobrados nos seus deveres e responsabilidades.
Quais são as causas? Uma administração utópica, falta de investimentos, desvalorização dos educadores.
Hoje os professores estão apanhando nas escolas. Os que estão em licença por depressão, são milhares. É impossível ficar em ambientes assim. O que presenciei pessoalmente, repito, é impossível não ficar doente.

Segundo James Heckman, professor da Universidade de Chicago, Prêmio Nobel 2000 em Economia, com estudos aprofundados na educação, “PAÍSES QUE NÃO INVESTEM NA PRIMEIRA INFÂNCIA TÊM MAIORES ÍNDICES DE EVASÃO ESCOLAR, GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA E CRIMINALIDADE. NÃO É UMA DECISÃO ECONOMICAMENTE INTELIGENTE”.
Wilson Pastor
Professor aposentado

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