Não basta ter

Geral


Jesus Guimarães


Embora as tábuas morais ou religiosas destaquem a importância do ser em contraposição ao ter, as sociedades humanas, desde que o mundo é mundo, desprezam essa norma. Nos tempos que correm, fazem isso sem pejo algum porquanto não só defendem a afronta abertamente como impõem condições especiais para o exercício do ter.

A meritocracia, eufemismo dado às atuais regras da promoção social, ignora o ponto de partida de cada um e cobra de quem nasceu miserável o mesmo desempenho dos afortunados que já nascem “proprietários do futuro”. Fundam-se partidos políticos para propalar a desumana ideia e, por incrível que pareça, conseguem o apoio de incontáveis injustiçados que, iludidos, compram o sonho de fazer parte do seleto clube de beneficiários dessa iniquidade. 

Na esteira desse equívoco, proliferam igrejas ou seitas que não mais propõem o reino dos céus, mas oferecem imediata riqueza na Terra, bastando que o irmão de fé contribua regularmente com a empreitada. Num passe de mágica, arrebanham milhões de crédulos capazes de tirar da boca dos filhos para premiar estelionatários travestidos de pregadores. 

Há muito deixou de ser vergonhoso assumir que o cidadão vale o que tem, sem importar o que é. O poeta maior Fernando Pessoa dizia que “tudo vale a pena, se a alma não é pequena”, entretanto cada dia menos se pondera a grandeza das almas e mais se mede o poder de compra de seus donos. Como arremate do descaramento, na cartilha da modernidade neoliberal pobreza é considerada pecado gravíssimo pelo qual o pobre, e ninguém mais, deve responder. 

Na outra ponta do novelo, exultam orgulhosos os da elite vencedora: “são ricos por que fizeram por donde, senão eles propriamente, mas seus pais, seus avós ou talvez antepassados remotos” (os moradores da Casa Grande). Ter nunca foi crime, todos desejam ter família, casa, emprego, carro, férias, contudo, em terras tupiniquins, muito mais do que no chamado primeiro mundo, o pessoal do último andar deleita-se por ter, sobretudo o que os outros não podem alcançar. Em 2012, a cronista social Danuza Leão reclamava em sua coluna: “... qual a graça hoje de ir a Paris ou a NY se posso encontrar por lá o porteiro do meu prédio?”.

A exclusividade do ter é uma volta a mais no parafuso da maldade. Não basta conseguir o que se almeja, é fundamental garantir que a maioria não tenha nada igual, sequer parecido.


Jesus Guimarães é professor, bacharel em Direito, funcionário aposentado do BB e ex-prefeito de Tupã. E-mail: zuguim@uol.com.br

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