As chances que tínhamos

Geral


Jesus Guimarães
 
Os brasileiros que, como eu, vieram ao mundo em 1945, tinham como expectativa viver em média até 44 anos; 53% deveriam atravessar a existência como analfabetos e 145 deles em cada mil morreram antes de completar 1 ano de idade. 
 
Em minha cidade natal, a pequenina Promissão, na região Noroeste do Estado de São Paulo, não havia hospitais, postos de saúde, nem entidades de assistência à infância ou à velhice. Os poucos médicos que existiam (quando não apenas um) atendiam em seus consultórios mediante pagamento da consulta, de maneira que a população, em sua maioria muito pobre, findava atendida por farmacêuticos e benzedeiras. Meu avô materno, alguns dias antes de eu nascer, sofreu um derrame cerebral e foi levado para casa. Quando o médico finalmente chegou, estava morto.
 
As ervas e chás medicinais eram muito importantes para alívio dos males do cotidiano: dor de estômago, lumbago, gripe e assim por diante. Todos tinham como plantas de seus quintais a erva-cidreira, o boldo, losna, arruda, cravo, hortelã, quebra-pedra, etc. Nada se comprava pronto, tudo devia ser feito em casa, desde as roupas até a torrefação do café, o sabão feito no tacho e o frango, morto e depenado na cozinha. 
 
Todas essas dificuldades foram agravadas naquela década de 1940 pela 2ª. Guerra Mundial. Em maio de 1945 a Alemanha, que foi o pivô de todo o morticínio no Velho Continente, rendera-se incondicionalmente perante o exército soviético que invadiu Berlim, contudo o racionamento de bens de primeira necessidade e a falta de combustível para o transporte continuavam a complicar a vida dos brasileiros; centenas dos nossos pracinhas haviam morrido nos campos da Itália e muitas mães choravam inconsoláveis.  
 
No Brasil, Getúlio Vargas era pressionado para realizar eleições, o que acabou acontecendo no final do ano. Em 1946, sob o governo do eleito presidente Dutra, aprovou-se uma nova Constituição que restaurou vários direitos negados em 1937.
 
Em tal atribulado mundo, minha mãe, filha de imigrantes italianos, casara-se com um brasileiro descendente de portugueses quatrocentões, porém mestiçados com índios, roceiros de Minas Gerais. Começaram a vida a dois modestamente, morando em três cômodos nos fundos de uma loja de bilhetes de loteria, no centro da cidade. Ali nasci, em uma quinta-feira de maio, às duas da tarde. O parto caseiro, pelas mãos de uma parteira, quase impossível pelo tamanho exagerado com que me apresentei, depois de muita força e reza, chegou a bom termo. 
 
O prédio terminou abrigando um bar e a família do proprietário. Vinte anos mais tarde, já como funcionário da agência do Banco do Brasil em Promissão, tive a oportunidade de tomar cerveja no quarto em que eu havia nascido, então transformado em “reservado” do estabelecimento - os colegas de serviço jamais acreditaram nessa coincidência maluca. 
 
Por sorte e conta da evolução global, escapei das três ameaças. Sobrevivi à provável morte em doze meses, sentei-me nos bancos escolares e, nem sei como, venho ultrapassando a barreira dos 44 anos desde a distante década de 1980.
 
Saúde!  
 
Jesus Guimarães é professor, bacharel em Direito, funcionário aposentado do BB e ex-prefeito de Tupã. E-mail: zuguim@uol.com.br

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